LAGUNA.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

BATISTA ABRAHÃO, UM PILOTO COM 7000 HORAS DE VOO


Banner colocado na barraquinha do avião, sensibilidade dos festeiros de 2011.

por Márcio José Rodrigues

Desde que me conheço por gente, jamais perdi uma festa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna.  Nos tempos de juventude, no calor das arrasadoras paixões, tão fulminantes como passageiras, nos dourados anos 60, os 13 dias da parte profana da festa eram realizadas ao ar livre nas noites frias de quase inverno no adro da matriz. Espaço grande abrigava uma dezena de barracas apenas cobertas com um toldo de pano colorido. O frio cortante não vencia o entusiasmo, nem as roupas novas que faziam das noites um eterno desfile de moda das moças lindas da próspera cidade. Quentão de vinho com pinhão, aqueciam o coração e  e o corpo e ajudavam a aproximar os enamorados. Num poste, um serviço de alto falantes rodava os vinis com músicas animadas e também as românticas. Dedicatórias, nem sempre encomendadas pelo galã anunciado, eram truques de amigos para, às vezes, fazer uma casal apaixonado desembuchar de vez.  " O jovem João Osvaldo Ferraz de Mello, dedica à senhorita Marília, "Encosta tua Cabecinha no meu ombro e chora", como prova de amor e carinho." E funcionava. Muitos casamentos começaram aí.
Havia porém, além de tudo, a barraca do aviãozinho conduzida por um cidadão, o Batista, alegre e comunicativo, a maior atração da quermesse. Um teco-teco de lata acionado  por possantes hélices de um motor elétrico, "voava" em círculos sobre uma mesa redonda com os números da sorte, distribuindo galinhas assadas ricamente embaladas em um prato de papelão com farofa,  envolto em papel celofane. Batista Abraão ( o nome verdadeiro era João José Abrahão) nunca arredou o pé daquela  barraquinha e daquele compromisso com a Igreja, por mais de meio século, em qualquer tempo e em qualquer circunstância. Os tempos mudaram e o aviãozinho de lata, foi substituído por um moderno jato DC 10 , mas o piloto adaptou-se maravilhosamente, sem qualquer transtorno. Envelheceu na carreira e jamais se aposentou, até que seu amigo Santo Antônio veio buscá-lo para uma viagem maior, mesmo porque o velho Batista já estava com saudades de certas pessoas.
Lembro-me dele, da minha juventude, das moças elegantes da festa, dos sonhos de uma época tão linda e me dou conta de como ele fez parte de nossas vidas.
Neste momento, ocorre-me um pensamento:
Acho que ele foi para o céu de avião!



Novo avião da barraquinha.  Batista foi o primeiro a pilotá-lo como um ás.

 João José Abrahão era homem de milhares de amigos. Sócio da loja  "A POPULAR - ACASA DA LINDA BAIANA", era nas horas de folga, um exímio churrasqueiro. Nos fins de semanan de descanso, pilotava também os espetos e sempre gratuitamente, em casamentos, aniversários, festas beneficentes, para a Igreja, a Maçojaria, o Centro Espírita, ou quem precisasse, sem distinção.  Era parte de um grupo formado por ele, o Batista, Atalibinha, Gonçalo, Onildo, Quido, Otavinho, os mais antigos. Não cobravam nada, mas bebiam cerveja como um carro pipa. Posso falar porque paguei este cachê no churrasco da minha despedida de solteiro.