LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

domingo, 8 de julho de 2018



Distância  - por Henrique Helion Córdova

             
Meus sonhos, freqüentes, velozes, mais velozes que eu, são sempre inalcançáveis;
Minhas jornadas, ágeis, intensas, em busca dos prêmios oníricos, são incansáveis.
Meus variados sonhos prosseguem insistentes e persistentes, agressivos e impiedosos;
Minhas jornadas, mais penosas,
negam-se ao esmorecimento leniente dos medrosos.
Inesperadamente, sonho que o mistério de minhas quimeras será desvendado nas próximas primaveras;
Mas, no setembro da revelação prometida e tão esperada , não mais que acordei extenuado, deveras.
Não obstante , quero continuar sonhando, até que as minhas forças, exangues, suplantem todas as eras.

Henrique Helion Velho de Córdova
é escritor e poeta catarinense, nascido em São Joaquim em 21 de dezembro de 1938. 
Homem de extensa cultura jurídica e humanística é considerado um dos mais primorosos oradores do Estado de Santa Catarina.
Na vida profissional destacou-se como advogado (UFRGS) e na política, como vice- governadopr do estado, ocupando a gevernadoria nos anos 1982/1983.
Também exerceu mandatos de deputado e, principalmente, como Deputado  à Asembleia Nacional Constituinte de 1988.

sábado, 7 de julho de 2018

JOÃO JERÔNIMO DE MEDEIROS



UM AMIGO MUITO QUERIDO.


Sabe aquele amigo a quem voce costuma chamar de irmão por causa de laços criados no coração?
Então... Este aqui está completando hoje 80 anos de uma existência iluminada por Deus, nos caminhos e vocação da família, da educação e do cristianismo. 

Nossa gente  vem de longa data se estimando desde os velhos tempos do Imaruhi lá do século XIX.
Na juventude nos encontramos no internato do Ginásio Sagrado Coração de Jesus ( scj) em Tubarão onde fizemos o ginasial e depois no Colégio Catarinense de Florianópolis (jesuitas), também como alunos internos e portanto, de convivência quotidiana.


O esporte não era o seu forte, mas compensava sobejamente no campo da cultura, na literatura, poesia, oratória e teatro.
Dedicou-se à educação onde foi um baluarte do Projeto Rondon, além de ser um dos pilares da Universidade Unisul, desde o seus primórdios de Fundação Educacional.

Colégio Catarinense 1969.. Jota na extrimidade direita da segunda fileira.
Professor do ensino superior, ecomomista, teólogo, advogado, poeta, escritor, administrador, conferencista, mas sobretudo um ser humano notável pela bondade, o caráter impecável e um chefe de família de respeito, com muito amor, doçura e carinho. ( a bem da verdade, também teve muita sorte em ter casado com Vera, sua primeira e única paixão).
Sei que o este pequeno espaço não comporta o seu curriculum vitae, mas também, esta intenção de agora é celebrar sua vida e sua amizade.
FELIZ ANIVERSÁRIO, JOTA.




MEUS OITENTA ANOS, JÁ VIVIDOSJoão Jerônimo de Medeiros
Agradeço, e a Deus bendigo
Oitenta anos que hoje faço;
E a todos e a cada amigo
O meu carinhoso abraço.

Bem feliz, aqui eu estou
Por viver um tempo, assim!
Mas, a vida me ensinou
Que não há tempo sem fim.

Preciso, então, me cuidar
Para viver com alegria,
O tempo que me restar.

A vida é bênção de Deus,
Que me trouxe até este dia,
E a peço aos amigos meus.

Amém







terça-feira, 3 de julho de 2018

retorno

Caríssimos.
Após cobrança de um amigo escritor e poeta, para retornar ao BLOG docmarcio.blogspot.com e após um
 pouco mais de um ano sem nada publicar, observei que eu havia deixado para trás perto de 130.000 acessos.
Azulejos portugueses na Casa Pinto d'Ulyssá - Laguna SC
Peço desculpas e os reconvido a ler, participar, opinar e enviar suas matérias e fotografias, relatos de viagens, poesia, crônicas e artigos para quem sabe, darmos juntos uma nova dinâmicas a este instrumento util de comunicação.
Vamos começar?

segunda-feira, 5 de junho de 2017


O PINHEIRO E A NUVEM 
5 de maio, Dia do Meio Ambiente
                                                 por márcio josé rodrigues

Nas antigas florestas deste lado do mundo, uma grande amizade nascera e se perpetuava por tempos imemoráveis, entre as árvores e as nuvens.
Nuvens parecem todas iguais, são disformes, ou melhor, conseguem mudar a todo instante.
Dizem que são passageiras. Mas, acredite, elas têm coração, sentimentos e uma memória inapagável.
Uma delas tinha uma especial afeição por uma gigantesca araucária que havia nascido numa colina à beira de um paradisíaco vale, há mais de mil anos.
Araucaria brasiliana - pinheiro catarinense.

O lugar onde a semente caíra era uma fenda em rochedo alto e inóspito, exposto aos raios inclementes do sol.
Mas era uma plantinha valente, aquele pinheirinho. Infiltrou suas débeis e pequenas raízes em todos os minúsculos espaços onde havia qualquer nutriente que a ventania, porventura, se encarregava de alimentar.
O pequeno arbusto havia conquistado sem o saber, uma madrinha entusiasmada com sua coragem e persistência, uma daquelas nuvens que passavam por aquele lugar.
Quando ela voava rente ao topo da colina em sua ronda em torno do planeta, fazia chover sobre ele uma garoa suave e vivificadora, fresca, que o aspergia e encharcava de carinho, o bastante para mantê-lo vivo e ainda mais encorajado.

Com mais abundância a água generosa e farta alimentava o gracioso rio que corria pela campina lá embaixo.
Então ele agitava alegremente sua copa ao vento e desprendia um suave aroma de sua essência preciosa.  Assim, sua amiga partia totalmente perfumada, de volta à rotineira viagem, levando consigo aquela lembrança de seu amigo.
Ele cresceu, rompeu e despedaçou a rocha, ganhou a terra profunda.
Tornou-se um respeitável gigante. Produziu incontáveis pinhas estufadas de saborosos pinhões, alimento fundamental de muitas espécies de animais, entre eles, as ruidosas gralhas azuis que se encarregavam de espalhá-los pela mata onde nasceram outros tantos pinheiros, seus filhos.
Um dia, porém chegaram os homens de pele clara, com suas mulheres e crianças e seus machados de ferro. Iniciaram um lento processo de destruição e abertura de clareiras para construírem suas casas, perseguindo e matando os animais, caçando e exterminando os antigos habitantes de pele escura que viviam em paz com a mata. Depois mandaram notícias aos seus semelhantes e eles continuaram chegando cada vez mais numerosos, em multidões furiosas, com mais ferramentas, doidos varridos de ambição e morte.
Descamparam a antiga floresta para suas estranhas plantações, poluíram o cristalino rio com venenos desconhecidos, extinguiram os peixes e aprisionaram as aves.
Rasgaram estradas em uma incontrolável fome de mais árvores para simplesmente queimar ou fazer mais casas, currais e cercas, pois se achavam donos da natureza e marcavam com estacas e paliçadas tudo aquilo de que tomavam posse.
 E assim se foram as imbuias, os pinheiros, os jacarandás, as caneleiras, as perobas e os garapuvus.

Certo dia aconteceu o que jamais ninguém imaginara, nem mesmo os mais antigos daqueles doidos. O rei da floresta, a mais idosa de todas as árvores, não resistiu a dias e noites a fio, de tortura a golpes de machado.  
O velho majestoso pinheiro, orgulho daquele lugar também tombou.
Quando as nuvens retornaram e viram a devastação ficaram perplexas. A nuvenzinha, porém, ao perceber o desaparecimento do querido amigo, entrou em desespero. Voou pelas vizinhanças à sua procura, contorceu-se, rodopiou mil vezes a chamar alto por seu nome sem, contudo, obter resposta ou, quem sabe, sentir um só resquício de seu perfume.
Ao seu desespero uniram-se as demais amigas e, tantas eram, que esconderam o sol. Por dias e noites sem parar, clamavam e seus gritos desesperados eram trovões que ribombavam pelas quebradas das montanhas, fazendo tremer tudo em volta. E acenderam suas luzes para iluminar a escuridão e suas luzes eram raios fulminantes que incendiavam e matavam, colocando os homens em pânico.
Cansadas e sem mais esperança daquela procura insana, puseram-se a chorar de dor e desespero e suas lágrimas copiosas fizeram transbordar o rio, inundaram as cidades, matando, fazendo desmoronar as encostas, soterrando casas, carregando suas pontes, deixando em tudo, um palco de terror e desolação.
Quando o vento as empurrou, enfim, para o vazio do espaço, quando o céu recuperou sua cor azul, não restara muita coisa daquilo que era o lugar das pessoas.
E as pessoas também choraram seus mortos, desaparecidos e suas perdas irreparáveis.
O sol voltou e eles recomeçaram suas vidas tentando reconstruir seus lares naqueles mesmos espaços em que se amontoavam.
Com certeza, vão buscar novas árvores, cada vez mais longe.
As nuvens estão agora em viagem ao redor do mundo.
Elas voltarão na próxima primavera, ou quem sabe no inverno ou outono à procura das suas amigas. 
E, com muito mais saudade, vão chorar de novo e de novo, talvez muito mais e com maior desespero. E destruirão muito mais enquanto os homens não aprenderem a conviver com a natureza.

https://www.youtube.com/watch?v=s9PQ7qPkluM
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sábado, 13 de maio de 2017

Dona Quena (Lourival Mattos Rodrigues) professora.
Na foto, quando diretora em Gravatal - G.E. Grealdina Mariaia Tavares

 Cartinha com Endereço Céu.

Mãe, estamos doentes das emoções.
Estamos insatisfeitos, decepcionados, desiludidos, desorientados e infelizes.
Mãe, um grande psicólogo chamado Augusto Curie, que já vendeu mais de 20.000.000 – vinte milhões de exemplares de suas obras de fama mundial, afirma que a cada dois de nós, um está doente das emoções, sente medo, angústia, depressão, não se adapta mais ao meio em que vive e não se encontra a si mesmo. Então, somos quase 4 bilhões de doentes que nos atiramos a esperanças inexistentes nos smrtfones, tablets, redes sociais, shoppings ou encontros vazios para bebidas e drogas, mesmo as que, em solidão, consumimos em casa com receitas médicas autorizadas, mas nenhum desses meios nos acolhe ou nos consola. Nem os clubes, nem as igrejas, nem as os ritos tribais dos encontros musicais frenéticos, todos de algumas horas de apenas esquecimento, sim, porque estamos fugindo da consciência.
A sociedade atual afirma que família é coisa velha e acabada, que pai e mãe são figuras ultrapassadas, obsoletas e prejudiciais à nossa liberdade, e nos induzem a problemas mentais, insegurança e perda da personalidade.
Os poderes que dominam os povos desmantelam a família de pai, mãe e filhos, de maneiras sutis ou escancaradas, para nos manterem divididos, obedientes e fracos.
Mãe, desapareceu o aconchego fofo, daquele ninho tão único, o cheiro tão peculiar, o calor tão personalizado. Ah, e aqueles dois braços firmes e suaves cruzados sobre nossas costas trazendo junto um rosto inclinado sobre nossos ombros em contato com nossa face e um coração cantando sobre o nosso como se estivessem conversando.
Esta medicina, esta cura, esta felicidade concreta está se esvaindo do mundo.

Mãe, que falta, que vazio sem esperança, que saudade.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

                        O ARTIGO TERCEIRO (7)
                             A MOSCA AZUL
                                           márcio jose rodrigues

Já faz incontáveis eras que os sapolíticos esquartejam e dividem entre si o poder sobre Lagoa. Desde imemoráveis tempos os sapoderosos vêm montando uma intrincada rede, um emaranhado de truques e armadilhas para chegar aos seus fins e legitimar a divisão e mando sobre os demais.

Foi assim que criaram os sapartidos políticos.
Sapartidos são labirintos ideológicos cheios de doutrinas e segredos, cores e bandeiras, incontáveis siglas e credos falsos. São tantos os sapartidos, que o atônito povo fica desnorteado e então segue os apelos da sapropaganda dos Sapeéssedês, Sapetês, Sapeésses, Sapsóis e dos sapeláquemaisoquê.
       Cabe aos sapartidos apontar seus paladinos ao grande torneio eleitoral da primavera, um Saprefeito e alguns veraneadores (sapolíticos que tomam posse no verão – mas há controvérsias).
Como os anfíbios são avessos ao frio e só gostam de aparecer nos tempos de calor, convencionou-se também chamar assim a um grupo de eleitos encarregados de fazerem e adaptarem as leis lá na Toca do Povo e de acordo com as marés e seus próprios interesses. A toca do povo foi rebatizada de Câmara dos Veraneadores.
      
Para muitos sápios e sapensantes, veraneadores são um anacronismo, um peso morto na economia e nem deveriam mais existir.
Quem os coloca lá no topo, quem legitima seu “status”, paradoxalmente, somos nós os bagres, tudo na forma e na força da lei.
     
      De quatro em quatro anos ou 210 luas no tempo contado à nossa moda, somos obrigados pela força da lei a escolher os nossos representantes no poder lagoense através do torneio eleitoral, “a guerra dos sufrágios”.
O torneio também é um jogo de risco inevitável para evitar males maiores, até mortes, mas também uma chance de mudarmos o destino de Lagoa e banirmos os malfeitores para o esquecimento e desterro político.
Perdoem-me as ostras, mas isto é o que nós chamamos ostracismo.
Mas, uma estranha anomalia, uma espécie de doença mental toma conta de Lagoa inteira nos tempos do torneio. Para alguns, escolher os representantes no governo é um momento solene de responsabilidade e dever.
Infelizmente, para os demais, somente uma farra, um tempo de alucinação, perda total do juízo, um desligamento mórbido da realidade onde amigos tornam-se inimigos mortais e famílias rompem elos imortais.
Um sufrágio, o voto, é uma fagulha de poder que até aos bagres é concedida, mas somente por um segundo num período de exatos 1.461 dias.
Uma preciosa, frágil e enganosa mosca azul.
É a efêmera, mas suprema autoridade e direito de escolher seus governantes.




Conta-se que a certo vivente foi concedida por Mãe Natureza, uma visão profética sobre seu sufrágio.
Em transe ele se viu como um dos candidatos ao poder. Em suas mãos haveria uma Lagoa limpa e embelezada, trilhas bem cuidadas, todos os filhotes na escola, saprofessores satisfeitos, uma sapolícia civilizada garantindo segurança e todo o povo feliz, cada um desempenhando seu papel com alegria e satisfação.
Também mostrava como seria Lagoa nas mãos de Sapolítico, o inverso de tudo, uma visão tenebrosa do caos, da desorganização, da mentira e da fraude, das greves, dos protestos, do roubo, do crime, do desemprego e as crianças chorando de fome.
A história correu todos os recantos.
Os viventes ficaram deslumbrados com as maravilhosas revelações. Finalmente, uma luz na escuridão começava a brilhar e uma nova esperança pairava sobre o destino de Lagoa.
As multidões o seguiam como a um comandante autointitulado o “soldado eleitoral”, defensor da terra mãe, da decência, da ordem e do direito.
Sapolítico não tardou a perceber esta força descomunal. Usando as artimanhas da velha sapolítica ancestral, jamais o atacou, mas passou a segui-lo como toda a massa. Em pouco tempo já marchava ao seu lado, apresentando-o como o novo salvador, não mais um simples soldado. Sem perder a oportunidade e com muito bom papo logo o promoveu a um posto mais destacado, “cabo eleitoral”, um modelo, o paradigma, cuja palavra deveria ser ouvida com atenção.
O recém  promovido cabo eleitoral passou a gostar das bajulações, dos abraços e da comida farta dos banquetes e em pouco tempo a visão saprofética foi se contorcendo, desbotando, esfumaçando-se.
Sapolítico já o tinha quase fisgado pela vaidade.

Em uma noite escura e silenciosa, numa ceia estupenda de finas iguarias, regada a sucos raros, bateram muito papo.
Soprou-lhe o medo!
 “E se perdesse o torneio? Como enfrentaria a vergonha, o que diria a família?
Faltava agora só o veneno da ganância.
Sapolítico estendeu-lhe uma taça reluzente e lhe fez provar um gole de uma bebida mais doce que o lendário hidromel, o novo ópio dos deuses, a sapropina!
 A sapropina mostrou-lhe uma trilha mais eficiente que o esforço, mais segura que o risco e mais suave que cansaço do trabalho, uma mágica mais rápida de se igualar aos sapoderosos, de ser visto ao lado deles, de morar em tocas iguais, de frequentar os mesmos lugares, de reinar sobre os insignificantes.
O profeta da visão cósmica agora era um novo saprofeta a serviço de “o poder”.
Os demais crentes que o seguiam como carneiros também passaram a barganhar seus sonhos contidos em cada sufrágio, por uma cuia de minhocas e besouros consumidos em um só dia.
Sapolítico venceria mais uma vez.
A vitória trazia seu pesado ônus de viver eternamente a sina de medo e da ansiedade.
Tinha um longo caminho a percorrer entre barganhas e acordos para conviver com os insaciáveis veraneadores.
À sua frente o implacável “fio da navalha” (1) por onde haveria de caminhar todos os dias enquanto ambicionasse o poder.

Em pouco tempo o pobre saprofeta , foi abandonado à sua miséria e como um demente, molestava os passantes, tentando contar-lhes sua triste história de como teria sido se não matasse sua oportunidade.
Para ele chegara o ostracismo.

          


A Mosca Azul (Machado de Assis)


Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"

Então ela, voando e revoando, disse:
— "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Caxemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí sai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.