LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

quarta-feira, 11 de maio de 2011

UMA LÁPIDE PARTIDA


Por Afonso Prates Silva*


Imagem Google

Viajava para Laguna numa certa manhã de outono, rádio ligado, só notícias de corrupções e roubos em todos os setores. À medida que avançava na Br a lembrança de minha infância voltava aos poucos. Minha visita tinha duas finalidades; uma, era rever amigos e parentes a outra, daria uma chegada ao cemitério da Igreja Matriz, onde estavam enterrados os membros de minha família, verificar seus túmulos, refazer as pinturas, pois estávamos próximo ao dia de finados.

A Matriz de hoje, muito diferente da de minha infância, reformas feitas na parte externa direita, modificaram sua antiga estrutura, ali estava situado um pequeno cemitério, protegido por um muro baixo, que ficava de frente para a casa do Sr. Pagani.
Havia muitos mausoléus pertencentes às famílias antigas da cidade, ornamentados com letras de bronze, anjos de mármore, o que nos dias de chuva e vento, motivado pela pouca iluminação da rua, refletiam sombras proporcionadas pela tênue luz de um poste próximo, formando cenas fantasmagóricas na parede da Igreja, tendo como cenário de fundo as antigas árvores com aquelas bromélias velhas cheia de barba de velho nos ciprestes dando um aspecto fúnebre ao ambiente. Muitas pessoas evitavam passar por ali durante a noite.

Em meus devaneios, chegamos a Laguna. Em alguns minutos estava eu frente à Igreja, rumando para a parte dos fundos onde hoje está situado o novo cemitério. Lá chegando fui entrando e olhando os túmulos, quantos amigos tinham morrido num espaço de tempo tão pequeno; pequeno para mim, acho que acontece com todos nós, não fazemos muita distinção do tempo, parece que somos sempre os mesmos, que nossas forças não são limitadas, que somos sempre jovens.

Depois de alguns minutos, visita feita, já me retirava quando ao descer vi junto a um paredão de pedras que nivelava o cemitério na parte alta e servia de muro de arrimo, um pedaço de uma lápide, onde se lia: “Aqui Jaz, Edmund Pheyt..”. o sobrenome estava pela metade, o suficiente para que eu recordasse uma estória que minha mãe contava sobre este alemão que viveu na cidade na década de 30 . Fui até a casa de minha tia, bem mais moça que minha mãe, que morava no bairro de Magalhães tirar umas dúvidas sobre o tal alemão, e ali juntos lembramos a estória que minha mãe contava.

Aconteceu na década de 30, o movimento nazista, a iminência de uma segunda guerra, o povo em geral vivia momentos de tensão. As notícias chegavam pelo rádio de alguns moradores mais abastados, muito poucas pessoas possuíam rádios naquela época; este alemão a que nos referimos, diziam, tinha família na Alemanha , trabalhava como fotógrafo na cidade, que naquele tempo era a metrópole do sul do estado. Muito rico, conhecendo a família de minha avó, numa tarde de outono, veio até sua casa pedir para ela que guardasse algo para ele. Ela prontamente atendeu a solicitação do alemão; trazia na mão embrulhado em um pedaço de pelúcia alguma coisa que mais parecia com uma jarra.

Minha avó o levou até o quarto do casal, e juntos colocaram embaixo da cama. O ambiente era de pouca luminosidade, pois era costume naquela época, os quartos não possuírem tantas janelas.

Despedindo-se agradeceu e foi embora. Soube-se mais tarde que partira para sua terra natal, que já se encontrava em guerra. E assim passaram os anos. Muito tempo depois isto já no final da década de 40 voltava ele a Laguna. Logo de início procurou minha avó para resgatar sua encomenda. Neste período, minha avó já estava viúva, pois tinha perdido meu avô recentemente.

Foram ao local no qual deixaram a encomenda e de posse da mesma levou para a cozinha onde mostrou a ela o que havia guardado por tantos anos. À medida que abria ia relatando passagens da guerra, sofrimentos sofrido por sua família e ia mostrando a minha avó as moedas de ouro e de prata que enchiam o boião de barro. Eram moedas do tempo do Império, trazia na efígie a figura de Dona Maria a Louca; valiam uma fortuna, basta dizer que com três ou quatro moedas daquelas poderia comprar uma casa com grandes metragens de terra. Depois de conferido tudo, colocou numa valise de couro e simplesmente agradeceu com um aperto de mão. Nada mais que isto. Meus tios que naquela época eram moços alguns já casados deviam ter falado do caso pela cidade, pois era motivo de conversa nos bares,
Dona Emilia, assim se chamava minha avó, guardou tanto dinheiro por tanto tempo, e nem seus filhossabiam, não foi agraciada com uma simples pataca, menor moeda da época.
Naqueles tempos, não se agraciavam as pessoas por serem honestas, a honradez e a honestidade era um dever, uma obrigação.
Mesmo assim, que unha de fome este alemão.

Foto acervo Afonso P. Silva

A verdade é que alguns anos mais tarde, o alemão Edmund foi encontrado morto na lagoa, junto ao cais, próximo à antiga subestação da Luz, com uma pedra amarrada no pescoço. Teve um enterro decente no cemitério da Igreja Matriz.
Até os dias de hoje nunca foi elucidado o crime.
Transportando-me para os dias atuais, onde predominam os corruptos de colarinhos brancos, penso, que bom se a honestidade e a responsabilidade de outrora viesse a predominar os dias de hoje. Se os homens que detêm a caneta do poder pudessem seguir estes exemplos; verdadeira utopia? Quem sabe um dia.... Todavia, ainda não perdi as esperanças.

* Afonso Prates Silva  é escritor e músico (pianista) nascido em Laguna. Também foi Industrial, além de professor com graduação em Letras (Português e Espanhol). Diretor da Fundação Educacional de Santa Catarina. Criou o curso de Espanhol em Braile no estado.
 
postagem Márcio José Rodrigues