LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

terça-feira, 17 de maio de 2011

ENTRE A LEI E O CALOTE


PROFESSORA MARIA DA GRAÇA DUARTE RODRIGUES - FORMATURA
por Márcio José Rodrigues





































Sou filho de DONA QUENA,  uma professorinha  que lecionava em uma escola reunida no interior.
Viúva ainda jovem, eu ela e minha irmã, éramos felizes e aprendemos desde cedo o que era economia forçada para sobreviver com o salário de uma professora.  Pequena horta, algumas galinhas, ovos, uma cabra que dava leite, pequenos peixes do riacho que corria pelos fundos  da humilde casa de madeira. O que nos ajudava a  manutenção, era a honestidade que sempre manteve o crédito na venda para alguns gêneros de primeira necessidade.
 Minha mãe também era uma enfermeira prática, a única da região e nas horas livres, corria a pé os caminhos de carros de boi do Gravatal, para aplicar injeções ou fazer curativos em feridos, ministrar remédios. O pagamento vinha com um bem-vindo "Deus lhe pague" ou  pencas de banana, açúcar mascavo, farinha de mandioca, pão caseiro, frutas de época. Aprendi a gostar de farinha de mandioca, pirão com peixe frito, sopa de açorda com um ovo.
A escola foi para nós, a nossa vida.
Estudamos, os três e formamo-nos, sempre com recursos minguados. Tornamo-nos todos professores.
Minha mãe galgou outros cargos chegou ao posto de "Inspetor Escolar", sempre por concurso público e daí para Coordenadora de Educação.
Fiz curso superior, pós-graduação em Metodologia do Ensino. Lecionava em três turnos por dia, com 400 alunos. Estudava como um louco e cheguei a ser hospitalizado por esgotamento.  Casei-me com uma linda professora (foto) e nossos salários juntos, não nos conseguiam   manter com uma vida digna da nossa cultura e saber.
Conheci ao longo de  mais de trinta anos de magistério, colegas com problemas maiores que os meus, magros, mal vestidos, doentes, com jeito de fome na hora do recreio, ansiando por uma sobra da merenda escolar.  Nunca conseguimos qualquer reconhecimento, não fossem as greves deflagradas.  
E sempre perdemos.  Os pais dos alunos, paradoxalmente, nunca nos apoiaram.  Para eles éramos babás de graça pagos pelo governo e aliviávamos a carga de cuidar dos filhos por quatro horas por dia. Para eles deveria haver aulas aos sábados e domingos e sem férias, de preferência.
Ao longo desses anos só vi a educação degradar-se, cair a níveis inaceitáveis para a moral e os bons costumes. A impunidade ensinada pelo exemplo dos políticos sustentados abaixo de golpes baixos, garante a bagunça sem restrições.

Os direitos humanos não conhecem os professores.  Eles enfrentam o corredor da sala de aula como um condenado enfrenta o corredor da morte de Sing-Sing, com medo dos alunos, crises de pânico, stress. Não são poucos os que se encontram licenciados para tratamentos psico-somáticos.  Com direito apenas  às esperas do SUS, pois não podem pagar um plano de saúde completo.

Todos ganham muito pouco, não podem assinar revistas nem comprar livros. A maioria ganha menos que uma empregada doméstica e não raro, trocam para essa profissão.
Computador, internet, que deveriam ser  ferramentas obrigatórias a um profissional da pedagogia, a um professor, só virão por milagre, depois da comida, do aluguel, da conta da Celesc, da Casan, do gás, do material escolar dos filhos, dos remédios, das passagens de ônibus.
A Educação, a escola pública, a infância e a juventude que deveriam ser a menina dos olho do governo,  passam a ser propriedade dos traficantes de drogas, que já tomaram seus espaços nos templos da educação.
O Piso  Salarial do Magistério, é lei sacramentada pelo Supremo Tribunal Federal.
Mas, o governo de estado de Santa Catarina, quer ministrar a aula magna do calote, pretendendo desmantelar  a verdade e a lei para assaltar os mais  miseráveis da folha de pagamento do  estado.
Quem sabe, senhores governantes, um dia, os senhores não precisem ser atendidos por um advogado ou médico formado na escola que vocês querem abandonar!

SENHORES PAIS.
SEUS FILHOS TÊM DIREITO A UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E GRATUITA.
APOIEM, UMA VEZ NA VIDA, OS PROFESSORES E LEVANTEM BANDEIRAS A FAVOR DOS ANJOS DA GUARDA DOS ALUNOS.
FIQUEM A FAVOR DA EDUCAÇÃO!

Márcio José Rodrigues é professor de Biologia aposentado após 32 anos de magistério.