LAGUNA.

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A TERRA EM QUE NASCESTE

sexta-feira, 20 de maio de 2011

COMO GASTAR VINTE MIL RÉIS


por Márcio José Rodrigues - crônica.

Sábado, logo depois do almoço, uma tarde quente de verão, nenhuma folha se movia no pé de anonas.
A barriga cheia, o calor, a quietude, provocavam uma modorra dolorida, mesmo num garotinho de nove anos, que procurava alguma coisa interessante para fazer. Na casa ao lado os adultos dormiam a sesta.

Entreabriu a porta da fabriqueta de colchões de palha do avô Antônio Lino. Pelos cantos, empilhados, fardos de palha de butiá e peças listradas de panos vistosos, muito coloridos. Aquele lugar, naquela hora, parecia um tanto misterioso e assustador e exalava uma estranha mistura de cheiros de bolor, umidade e goma de fazenda nova.
A luz forte do começo da tarde, filtrava pelas juntas das telhas e deixava uma penumbra suave no pequeno galpão, mas os raios do sol desenhavam seus caminhos luminosos no espaço impregnado de poeira e de fibras leves de algodão que destacavam de branco, as teias de aranha no madeirame do telhado.

Diante da mesa grande - uma que tinha uma roda de ferro com uma manivela - bem no facho de luz que a porta projetava no assoalho de tábuas largas, estava silenciosa, assustadora, deslumbrante, a pelega de vinte mil réis.
A pelega era enorme.
Quem a teria perdido ali?
Não demoraria muito, por certo, a casa estaria toda em polvorosa à procura dela.
Melhor chamar a vó e entregar.
Mas, quem acreditaria que a nota tinha sido achada naquele lugar, assim tão à mostra?
Os adultos não eram fáceis.
Haveria mil e uma perguntas, desconfianças.
A história teria de ser contadas muitas vezes, principalmente para a desconfiadíssima tia Zilda.
A cena do “crime” seria revisada, haveria ameaças.
Sabe o que mais?
Deixar tudo no devido lugar e fazer de conta que não tinha visto nada.
- Vinte mil réis!
Um pirulito de galinho na venda de seu Samuel custava um tostão. Cada mil réis tinha dez tostões. Dava de comprar um galinho por dia, durante duzentos dias.
Sacos e sacos de pipoca.
E se a pelega tivesse sido perdida por algum comprador, na hora de pagar?
Se fosse do avô, ele sentiria falta.
Mas, se fosse de um comprador, ninguém sentiria.
A matinê de Domingo, no cinema, custava “quinhento réis”.
Um gibi, também.
Nenhuma tia parecia acordada.
E se alguém viesse procurar?
Um picolé de coco na Miscelânea custava “quinhento réis”...
Tentação, medo, ambição, angústia, vinham e voltavam, intermitentes como se tudo estivesse latejando.
Que vontade de pegar aquela pelega e sair comprando tudo.
Que medo de ser descoberto.
Pânico.
Mas, o diabo devia estar rondando por ali.
Não veio pessoalmente, mas mandou um secretário, porque, de repente...
A sombra na porta!
Puta susto desgraçado!

Primo Nivaldo estava por ali negaceando, sorrateiro.
- De quem é esse dinheiro?
Pouco depois estavam os dois na “A Miscelânea”, um na porta de guarda, outro no balcão comprando sorvetes.
- Duplos!
- Duas bolas – de creme e ameixa.
- Duas gasosas! - gasosa Grünner, uma de framboesa e outra de abacaxi, com canudinhos.
O troco da compra era tanto dinheiro que começou a crescer no bolso.
- Quanto ainda tem ?
- Dezoito!
- E agora?
- Quero mais sorvete!
Quase ninguém na rua.
As poucas pessoas estavam mais em volta do Café Tupy, da Miscelânea e da Sorveteria Polar.
- Não quero mais sorvete!
- Quanto tem de troco?
- Dezessete! – uma porção de notas de dois mil réis e uma montanha de moedas, que pesavam e tilintavam no bolso. À medida que o apetite sumia, um aperto subia desde o estômago até a garganta. E o maldito dinheiro, aumentava cada vez mais. Como voltar com aquilo tudo para casa?
- A gente tem que gastar o dinheiro!
- Vamos comprar picolé!
- Do quê?
- O meu é de côco!
- E agora?
- Vamos comprar gibi na livraria do Juca!
- Almanaque d’O Tico-tico! – Réco-réco, Bolão e Azeitona, cantarolavam.
-  Pato Donald!
- É sábado! – está fechada!
- Não agüento mais! Vou jogar fora o picolé!

Meia hora mais tarde, sentados na beira do cais, o crime produzia as suas conseqüências.
O dinheiro do troco, parecia cada vez maior.
Tinham errado o pulo e não imaginavam que fosse assim tão difícil, gastar vinte mil réis.
O medo aumentando, oprimindo o coração.
Parecia aquele filme de bandido, em que o sujeito não conseguia esconder o cadáver.
- Tô com vontade de vomitar!
Nem conseguiram acabar de comer as barras de chocolate.

Pode parecer impossível - com a educação permissiva e tolerante dos dias de hoje, que algum menino se preocupasse com uma situação dessas.
Chegaria tranquilamente em casa e se por acaso, - e se, por acaso, alguém perguntasse, diria simplesmente :
- Achei!
E caso encerrado. As pessoas já não querem  incomodar-s e preferem às vezes, não saber o que os filhos fazem.
Mas, não era assim. Tudo era minucioso. Tin-tim por tin-tim. Não se deixava passar nada. Uma peneira fina.
Questões de objetos e dinheiro eram investigadas a fundo. As moedas queimavam no bolso como as de Judas.
- Quanto tem de troco?
- Acho que tem uns quatorze, perdi a cvonta!
- Vou falar prá vó! – disse primo Nivaldo, já querendo abrir um bocão e sabendo que vó Estelita iria protegê-lo.
- Tu tá louco!
- Não fui eu que peguei o dinheiro ! Eu só vim convidado!
- Eu digo que foi tu que achou! Aí eles vão te mandar para a casa da tua outra vó, a Lilica!
- Eu tô com medo!
- Vamos fazer assim : - a gente fica quieto e esconde o dinheiro. Depois a gente gasta de novo!

O muro de pedras ao lado da casa tinha frestas enormes entre os blocos, onde as crianças costumavam escavar com gravetos a argamassa velha de barro, à procura de ovinhos de lagartixa.
Numa dessas frinchas as moedas e as notas de papel enroladinhas, foram cuidadosamente escondidas.
Parece que tinha mesmo razão. A pelega devia ser de gente estranha, algum freguês de fora, porque em casa, nunca se tocou no assunto.
O medo de ser descoberto durou vários dias.
O coração disparava cada vez que alguém chamava.
Como se fossem soar as trombetas e despencar o Juízo Final.
Mas, nem mesmo a espertíssima irmã desconfiou de nada.
Primo Nivaldo, passou o fim de semana e a seguinte, na casa da outra avó, a Lilica.
Dias mais tarde, numa dessas horas quietas, foram, com muita cautela, verificar o esconderijo.
- Ué , o dinheiro desapareceu!
O desaparecimento do maldito troco, produziu-lhe uma intensa alegria. Sentiu um alívio enorme, como se tivesse livrado de um fardo, uma carga, que andava carregando há vários dias, que lhe dava pesadelos e sobressaltos.
Algum tempo depois, a paz voltou a reinar no mundo, onde já dava para viver sem medo e dispor até de um certo espaço para lembrar o incidente.
Mas, ficara para traz um mistério, que talvez, jamais pudesse ser resolvido.
O sumiço do dinheiro, de um lugar que só primo Nivaldo Sabia.