LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A RUAZINHA PERTO DA MINHA RUA




 Norma Bruno



A Ruazinha
Aquilo tudo era uma linda chácara, eu lembro. Eu era jovem e passava por alí de ônibus a caminho da Universidade Federal. Havia uma casa antiga, as paredes caiadas, uma porta e três janelas cor de vinho, a pintura desbotada. 

E, eternamente sentado na soleira da porta, um homem velho, barbas brancas. Diziam que era doido, que se a gente mexesse com ele, ficava agressivo. Não sei se era mentira ou verdade; recordo-o como uma foto enquadrada na janela do ônibus da Trindadense. Naquela época, não suspeitava que um dia moraria em seus domínios. A vida é engraçada. Imagino que o velho tenha morrido e os herdeiros tenham loteado a chácara em cujas terras foram construídas diversas casas. Num determinado espaço, as casas estabeleceram-se de “comprido”, como diz o povo, criando um beco onde, eu suponho, alojaram-se os parentes: filhos, netos e sobrinhos, lado a lado. Uns foram se mundando - sempre que a gente muda ganha o mundo -, outros foram ficando, ficando… 

A abertura de vias e estradas próximas mudou o destino do beco ligando-o a duas vias importantes, rua principal e avenida, elevando o seu status para “ruazinha”.  Tem uns cinqüenta metros de extensão a ruazinha e, apesar da mão dupla, nela só passa um carro por vez (azar de quem tiver o carro menor ou estiver mais perto da boca da rua, tem que voltar de ré). 

Nem sei se tem um nome, mas tem uma praça, pracinha, equivalente a um lote de terra, se muito, nascida da área verde estabelecida em lei. Possui umas tantas árvores velhas remanescentes da antiga chácara e canteiros onde flores teimosas nascem espontaneamente por entre a grama rala e tem também dois bancos como uma praça que se preze, só que esses, são voltados para a rua, contraditoriamente. Cortando a pracinha, um caminho liga uma rua à outra rua, abrindo-se no meio, para contornar uma árvore maior. 
Na ruazinha mora um homem que diariamente passeia com seu curió, tem mulher que espia na porta, assuntando, tem vizinha no portão conversando com outra vizinha, tem cachorro enfezado que late por obrigação de ofício, tem um homem que canta músicas do Nelson Gonçalves forçando voz de barítono, tem gente que vem, tem gente que vai; eu inclusive. 

Desde que vim morar aqui, uma coisa me intriga; não sei o que acontece: a despeito da loucura que brutaliza o nosso tempo, a indiferença, o individualismo doentio, a falta de civilidade e a violência, naquela ruazinha as pessoas se olham nos olhos e sorriem e se cumprimentam:
 – Bom dia, senhor! – Boa tarde, senhora! Eu sorrio e respondo – Bom dia, senhor, bom tarde, senhora!, Fico feliz quando isso acontece e me pergunto: teria a ruazinha, em sua pequenez, o poder de humanizar as pessoas reavivando memórias de vizinhança, bairro, cidade pequena? 

Hoje, ao cruzar com uma senhora carregada de compras, descobri o segredo. Naquela ruazinha sou eu quem olha as pessoas nos olhos, sou eu quem sorri e quem diz: – Bom dia, senhor! Boa tarde, senhora! É em mim que a ruazinha perto da minha rua reaviva memórias de vizinhança e cidade pequena. 

É a mim que ela humaniza e salva.
Norma  Bruno é professora de História, escritora e poeta de Florianópolis - SC

postagem Márcio José Rodrigues