LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O ROUXINOL E O COLEIRO - CRÔNICA PARA O DIA DO AMIGO

MANOEL SILVA nos seus tempos áureos no rádio
O ROUXINOL E O COLEIRO
por Márcio José Rodrigues


 Embora possa parecer impossível, chegaram a ser amigos íntimos.
              O primeiro chamava-se Manoel.
            Dentre todas as coisas de que mais gostava na vida, uma delas era cantar. Cantava pelo prazer de cantar, para sua amada, seus filhos e netos, para as pessoas, porque ele se sentia bem entre as pessoas, porque as amava. Sua forma de expressar o amor era cantar. Chegou um dia a ser famoso, teve seu merecido brilho, seu lugar de destaque na mídia de seu tempo, o rádio. Cantava nos programas das melhores emissoras, conquistou admiradores em lugares onde nunca fora visto e, mesmo, nem os poderia conhecer a todos, de tantos que eram. Invisíveis, mas fiéis.
           
Aos domingos, quando a gente se reunia para o almoço, ligava-se o rádio. A casa enchia-se com sua voz de um timbre quase metálico de um tenor suave, romântico, acompanhado de um violão em ritmo de samba-canção.
            Uma dedicatória, uma homenagem e mais uma canção.
            Aquela voz preciosa já lhe dera o título de “Rouxinol do Rádio”.

            Ultimamente andava silencioso.
            Uma moléstia sinistra roubara-lhe a luz dos olhos.
         Deixou de circular pelo centro da cidade, onde costumava derramar sua cordialidade, no gesto elegante e alegre, os cabelos penteados com esmero, as roupas sempre bem cuidadas.

            Faz algum tempo, coisa de alguns anos, ganhou de presente um coleirinho, delicado e minúsculo, muito bom cantor, um mimo de passarinho.
            Um presente muito inspirado, porque proporcionou o nascimento de uma doce e sincera relação de amizade.

            Manoel batizou-o simplesmente, com o nome de “Amigo”.
            Amigo afeiçoou-se a ele. Conhecia e adorava sua voz, talvez porque também fosse artista e entendesse de canções.
            Quando falava:
            - Amigo!
            Amigo lhe respondia com maviosos trinados.
            Compreendiam-se.
            Afinavam-se tanto na arte de cantar, como na de viver sem chorar e de saber apreciar da vida, o que ainda oferecia de bom.
            Se um era prisioneiro da gaiola onde nascera, o outro era prisioneiro da escuridão do glaucoma.
            Amavam-se.

            Numa dessas manhãs, Manoel reclinou-se em seus travesseiros, e se foi. Suavemente, como a vibração de um acorde de violão.
            Simplesmente, esgueirou-se pelo ar e voou.
            Mas, não foi só.
            No mesmo dia alguém notou que Amigo não estava saltitando no poleiro, como de costume. Talvez, quem sabe, escondido no fundo da gaiola, beliscando algum alpiste derramado.
            Mas, não!
            Amigo estava lá, caído, inerte.
            Morto, também.
            Como se um tivesse dito:
-          Vamos?
            E o outro respondido:
-          Vamos!

            Dona Leda teve a sensibilidade de sepultá-los juntos.
            Amigo recebeu uma pequena e delicada mortalha e discretamente, foi colocado ao lado do Rouxinol.
           " Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito."***

            Amigos para sempre, juntos e livres, sem as barras de suas gaiolas, voaram para o infinito, onde mora seu Criador.
            Amigo, com as asas que já ganhara ao nascer.
            Manoel, com aquelas que fizera por merecer em vida e que as recebera, finalmente, ao morrer.


###########



Os fatos aqui narrados aconteceram realmente. Escrevi esta crônica no dia em Manoel Silva, o "Rouxinol do Rádio Catarinense" silenciou sua voz. Fui seu amigo, seu colega quando trabalhamos no Colégio Comercial Lagunense e seu fã, quando ele abrilhantava os bailes dos clubes de Laguna e cantava nos programas de rádio, "O SERESTEIRO CANTA". O coleirinho "Amigo", dentro de um guardanapo de papel foi posto no bolso interno do paletó do nosso cantor e assim, os dois foram sepultados juntos.

***Canção da América - Milton Nascimento