LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

AFINAL, QUEM SOMOS NÓS?

                         O BURRO E A CENOURA.
                                          

Burro caminhava compassadamente puxando a carroça de frete carregada de fardos, tilintando musicalmente suas ferraduras meio frouxas pelo velho calçamento de paralelepípedos, que ele, certamente, havia ajudado a polir ao longo dos anos.
A vida de Burro não era fácil.
Além do peso da própria carroça, ainda havia a carga, nem sempre pequena, de areia para construção, tijolos e telhas, lenha para os fogões das residências, sacos de farinha para as vendas, as coisas mais imprevisíveis,
Não se recusavam fretes de qualquer tipo, morro-acima, morro-abaixo, para qualquer lugar, com qualquer tempo. Em qualquer circunstância, fosse qual fosse o carregamento, levava ainda de lambujem empoleirado lá em cima de tudo, o dono, que indiferente ao esforço do animal, assoviava sempre a mesma modinha, interrompida só para pitar um velho cachimbo, para cuspir ou repreender a besta com um:
- Anda, Burro! - esquentando-lhe o lombo com uma boa relhada.
Pela tardinha, quase escurecendo, depois de um dia trabalhoso, sofrido, chegavam em casa.
Burro enfiava sofregamente o focinho em um balde d’água nem sempre fresca e depois de saciada sede atacava um feixe de capim, nem sempre verde, em um canto de um tosco telheiro que mal e mal o abrigava da chuva e das rajadas rigorosas do vento sul.
Comia mal, bebia mal, morava mal e trabalhava demais.
O dono executava todos os dias o mesmo ritual, com poucas variações.
Depois de amarrar Burro, pendurava os arreios para arejar, varria meticulosamente a carroça, esfregava-lhe um pano molhado pela pintura, dava-lhe umas sacudidelas auscultando-lhe ruídos estranhos, passava-lhe graxa nos eixos e a abrigava no telheiro, sempre coberta com uma lona.
Então, fechava-se em sua cabana quentinha no areal, acendia a lamparina de querosene, bebia em grandes goles uma canecada de água do pote e assoprava os gravetos no fogão, até que  incendiassem as achas de lenha para aquecer água do  pirão de farinha de mandioca e para o indispensável lava-pés.
            Zé-do - Burro jamais se deitava sem lavar os pés.
As mãos, nem tanto.
E naquela quase mesmice de todo dia, os dois completavam-se, Zé-do- Burro e Burro-do-Zé e era assim que todos os conheciam.
O carroceiro nem pensava em outra vida.
Tudo parecia tão bem asssentado, tranqüilo, os longos passeios em cima da carga, a carroça bem conservada, a burrice de Burro.
Mas, aqui na cabeça, lá nele, no burro, estavam acontecendo algumas perturbações.
Um dia, aconteceu!
Burro empacou pela primeira vez.
Por mais relhaços que levasse, pragas e ameaças, Burro recusou-se a puxar a carroça.
Zé-do-Burro, pasmado, não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo.
            Fez de tudo.
Primeiro, descarregou a raiva em Burro, depois pensou em livrar-se dele, vendê-lo, mas quando se aprecatou, já ia muito longe a história do burro que empacava.
Uma noite de insônia, quase sem dinheiro, a conta aumentando na venda, Zé-do-Burro começou a perceber, o quanto sua vida dependia daquele burro.
Até sua condição humana estava reduzida a Zé-do-Burro como se o tempo tivesse já confundido a propriedade e o proprietário, o homem e a besta.
Isto precisava de um basta.
Mas, desfazer-se dele, seria o pior negócio.
Sem ele bem cangado ali na frente, a carroça parecia tão ridícula, tão sem sentido, melancolicamente ajoelhada ali na areia, com aqueles dois braços arriados, fincados no chão.
Os dias de greve, por estranho que possa parecer, aquelas férias forçadas acabaram por fazer bem aos dois.
Burro aparentava mais descansado, mais amistoso e Zé-do- Burro acabara tendo tempo para pensar em muitas coisas.
Foi de muito pensar, que resolveu aplicar um estratagema malicioso.
Arranjou uma enorme, colorida e cheirosa cenoura e balançou-a na frente do focinho de Burro.
O aroma tentador penetrou pelas ventas e percorreu sinuoso aquele corredor que vai até o cérebro, deixando o animal completamente arrebatado, diabolicamente prisioneiro do encantamento.
Então cangou-o de novo na carroça, e matreiro, prendeu nos arreios, um caniço de bambu com a extremidade por cima das orelhas de Burro, de maneira que a cenoura ficasse, irresistível, pendurada ali, tão pertinho da boca, tão na frente dos olhos, cheirando nas ventas.
            Burro nunca mais empacou.
Também, jamais provou da cenoura.
Ela permanece ali como uma promessa, balançando na frente de sua cara, e parece tão pertinho, que basta dar o próximo passo para alcançá-la.
Assim, voltaram às ruas aqueles parceiros pitorescos, com uma carroça bem cuidada, sobrecarregada de mercadorias, e lá em cima, um homem feliz, pitando seu cachimbo, cuspindo de vez em quando ou assoviando sua velha modinha, sem nem precisar mais usar o chicote.
Burro persegue pelas ruas, sua inalcançável cenoura, sem nem mais perceber o peso de sua carga.
Porém, imperceptivelmente, a cabeça, lá nele, continua tendo perturbações.
Chegará o dia em que descobrirá sua força e quebrará a carroça.

Teste sua percepção desta fábula
1. QUEM É O BURRO?
2. QUEM É ZÉ-DO-BURRO?
3. BURRO QUEBRARÁ A CARROÇA?